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Edição 01Concreto / Neon03 de setembro de 20264 min de leitura

Night City foi inspirada em São Paulo?

Cyberpunk, canalização de rios e materialismo histórico

Mike Pondsmith disse que São Paulo é o lugar mais cyberpunk que já visitou. Sob a ótica do materialismo histórico, Night City e a capital paulista compartilham mais do que o neon: a mesma lógica de concretar rios e segregar populações a serviço do capital.

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Redação Praxis

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Você já ouviu falar no subgênero de ficção científica cyberpunk?

Ele descreve um cenário distópico onde a humanidade avançou para o que se convencionou chamar de "high tech, low life": a tecnologia se desenvolveu desenfreadamente, mas, em contrapartida, os avanços predatórios do capitalismo atingiram o ápice da segregação e da desigualdade social.

Em uma espécie de "previsão" — ainda que pautada pela fantasia —, o ser humano vive em metrópoles com densidades sociais brutais. A tecnologia é uma parte viva dessas grandes cidades, onde ciborgues caminham pelas calçadas sob a luz sufocante de letreiros em neon.

O gênero se popularizou em diversas mídias, mas um de seus pilares no universo dos jogos foi criado por Mike Pondsmith com o RPG Cyberpunk. No entanto, o verdadeiro personagem principal dessa franquia não é um humano, mas sim a metrópole onde tudo acontece: Night City.

A utopia capturada

A origem fictícia de Night City vem do sonho do visionário Richard Night. Sua visão inicial era utópica: uma cidade construída do zero na costa da Califórnia, livre das amarras regulatórias e dos vícios burocráticos do Estado. A promessa era a de um espaço eficiente, seguro e próspero.

Porém, a utopia durou pouco. A cidade foi rapidamente capturada por grandes monopólios corporativos, crescendo sob a lógica de otimizar ao máximo a circulação de mercadorias, capital e força de trabalho.

Para atender a essa engrenagem, era necessário vencer um obstáculo natural: os corpos d'água da região, como o canal Morro e a baía de Pacifica. Eles foram severamente alterados, drenados e canalizados. Onde antes havia várzeas e ecossistemas naturais, abriram-se espaços para novos lotes imobiliários de altíssimo valor e vias industriais. A água em Night City tornou-se privatizada e instrumentalizada; os rios deram lugar a calhas artificiais para o descarte efluente e o controle de vazão das corporações.

São Paulo, o lugar mais cyberpunk do mundo real

O mais fascinante é que essa dinâmica não é meramente uma especulação teórica. Em declarações públicas, o próprio Mike Pondsmith afirmou que as cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro foram os lugares mais cyberpunk que ele já visitou no mundo real.

São Paulo é o exemplo perfeito do "high tech, low life", onde a riqueza hiperconectada e os arranha-céus corporativos dividem espaço imediato com a miséria e a exclusão urbana.

Se olharmos para a estrutura das duas cidades sob a ótica do materialismo histórico, Night City e São Paulo acumulam ainda mais semelhanças do que o próprio criador imaginava.

A gênese da metrópole

Para compreender esse paralelo, é preciso olhar para a forma como a metrópole paulistana foi gestada. A geografia do núcleo inicial de São Paulo deu-se sobre uma colina situada entre dois rios: o Anhangabaú e o Tamanduateí, tendo o Tietê ao norte. Do século XVI ao XIX, esses rios cumpriam uma função social primária — o que a teoria econômica chama de valor de uso. Eles forneciam água, peixes, proteção natural e áreas agrícolas. As várzeas — os terrenos baixos que o rio naturalmente alagava nas cheias — eram respeitadas pela arquitetura da época, pois a técnica colonial não tinha meios (nem interesse econômico) para aterrá-las.

Tudo muda com o boom do café e a abolição da escravidão. O centro econômico do país se desloca definitivamente para São Paulo, e a cidade precisa se adaptar à velocidade da circulação do capital internacional. A inauguração da São Paulo Railway em 1867 marca o início dessa metamorfose: o espaço urbano passa a ser moldado não para a reprodução da vida humana, mas para o escoamento rápido de mercadorias.

O rio como obstáculo

A partir do século XX, o rio deixa de ser um bem comum e passa a ser visto pela engenharia paulistana como um obstáculo ao desenvolvimento. Assim como em Night City, iniciou-se o processo de retificação e canalização do Tietê e do Pinheiros. As curvas sinuosas foram esticadas, as várzeas foram drenadas e o solo antes alagável transformou-se em especulação imobiliária. Sobre os leitos mortos dos rios, ergueu-se o sistema viário das Marginais, priorizando o transporte individual e a circulação de mercadorias em detrimento da dinâmica ambiental.

O resultado em ambas as cidades é o mesmo: o apagamento da natureza e a criação de uma barreira física de classe. Em Night City, os canais poluídos separam os distritos corporativos das periferias abandonadas como Pacífica. Em São Paulo, o rio retificado e concretado virou uma cicatriz urbana que divide a infraestrutura valorizada da periferia desprovida de serviços.

Night City nos fascina porque a enxergamos como uma distopia do futuro. Mas o olhar histórico sobre São Paulo nos revela uma verdade incômoda: a lógica de concretar rios, segregar populações e subordinar o espaço urbano ao lucro não é ficção científica — é o método pelo qual o mundo real foi construído.