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Edição 01Concreto / Neon03 de setembro de 20269 min de leitura

Night City foi inspirada em São Paulo?

Cyberpunk, canalização de rios e materialismo histórico

Mike Pondsmith disse que São Paulo é o lugar mais cyberpunk que já visitou. Sob a ótica do materialismo histórico, Night City e a capital paulista compartilham mais do que o neon: a mesma lógica de concretar rios e segregar populações a serviço do capital.

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Redação Praxis

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Você já ouviu falar no subgênero de ficção científica cyberpunk?

Ele descreve um futuro geralmente resumido por uma expressão simples:

High tech. Low life.

Sociedades em que a tecnologia alcançou níveis extraordinários enquanto desigualdade, precarização e concentração de poder avançaram na mesma velocidade. Megacorporações rivalizam com governos. Arranha-céus monumentais convivem com assentamentos precários. Inteligência artificial, vigilância, implantes cibernéticos e publicidade personalizada fazem parte do cotidiano de uma população que, apesar de cercada por tecnologia, continua lutando para sobreviver.

O gênero atravessou literatura, cinema, anime, quadrinhos e videogames, mas um dos seus universos mais conhecidos nasceu sobre uma mesa de RPG.

Em 1988, Mike Pondsmith publicou a primeira edição de Cyberpunk, universo posteriormente desenvolvido em Cyberpunk 2020, Cyberpunk RED e adaptado pela CD Projekt Red em Cyberpunk 2077.[1]

E talvez o personagem mais importante desse universo não seja humano.

É uma cidade.

Night City.

A utopia capturada

Na ficção criada por Pondsmith, Night City nasce associada ao projeto do empresário Richard Night: construir na costa da Califórnia uma cidade moderna, eficiente e planejada praticamente do zero. Uma espécie de laboratório urbano capaz de escapar dos problemas que assolavam outras metrópoles americanas.

A utopia dura pouco.

Interesses corporativos, crime organizado, conflitos políticos e concentração econômica progressivamente transformam o projeto. O território que deveria materializar uma cidade racional passa a responder cada vez mais às forças que disputam sua propriedade e seu controle.

Night City se converte em uma enorme máquina urbana.

Distritos corporativos monumentais.

Infraestruturas privadas.

Áreas industriais.

Portos.

Autoestradas.

Bairros abandonados.

Enclaves de riqueza separados por poucos quilômetros de territórios marcados por violência e precariedade.

Ela não é simplesmente uma cidade futurista que entrou em decadência.

É uma cidade cuja própria utopia continha as condições da distopia.

E talvez seja justamente por isso que ela pareça tão familiar.

São Paulo é cyberpunk?

A comparação não surgiu apenas entre jogadores brasileiros.

Em uma discussão pública reproduzida pela imprensa especializada em 2019, Mike Pondsmith afirmou considerar Rio de Janeiro e São Paulo as cidades mais “cyberpunk” em que já havia estado, destacando justamente a convivência entre desenvolvimento urbano, desigualdade e violência.[2]

Isso não significa que Night City seja simplesmente “São Paulo no futuro”. Suas referências são múltiplas, e o próprio Pondsmith já descreveu a cidade como resultado de uma mistura de diferentes metrópoles — incluindo San Francisco, Los Angeles, Singapura, Pequim e também bastante de São Paulo.[3]

Talvez a pergunta do título esteja, portanto, ligeiramente errada.

A questão mais interessante não é descobrir se algum edifício de Night City foi copiado de São Paulo.

É entender por que duas cidades separadas pela ficção parecem responder a algumas das mesmas forças.

Para isso, precisamos sair do neon.

E olhar para os rios.

A gênese da metrópole

O núcleo histórico de São Paulo se desenvolveu sobre uma colina situada entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí, em um território articulado a diversos cursos d'água e, posteriormente, à expansão em direção às várzeas dos rios Tietê e Pinheiros.

Durante muito tempo, esses sistemas fizeram parte diretamente da vida da cidade. Suas águas estavam associadas a abastecimento, navegação, pesca, lavagem de roupas, lazer e circulação de mercadorias.[4]

As várzeas também faziam parte desse sistema.

Quando o rio subia, elas alagavam.

Quando baixava, a água recuava.

Não era uma falha do território.

Era o território funcionando.

A transformação econômica de São Paulo, porém, começou a exigir outra cidade. A expansão cafeeira, as ferrovias, o crescimento demográfico e a industrialização aumentaram radicalmente a pressão sobre o solo urbano e sobre a infraestrutura.

No final do século XIX, projetos de drenagem e canalização já apareciam associados às preocupações sanitárias da cidade. Nas décadas seguintes, as intervenções ganharam outra escala. Em 1927, a Light obteve concessão para retificar, canalizar e inverter o curso do rio Pinheiros, transformando profundamente seu funcionamento hidráulico.[5]

O rio, antes sinuoso, deveria tornar-se previsível.

A várzea, antes inundável, deveria tornar-se disponível.

A natureza precisava caber no projeto.

O rio como obstáculo

Durante o século XX, os rios Tietê e Pinheiros foram submetidos a grandes transformações. Seus meandros foram reduzidos, áreas inundáveis drenadas e extensas superfícies anteriormente pertencentes às várzeas foram incorporadas ao processo de urbanização.

A geógrafa Odette Seabra dedicou sua tese Os meandros dos rios nos meandros do poder justamente a investigar a transformação dos rios Tietê e Pinheiros e a valorização de suas várzeas, demonstrando como intervenções aparentemente estritamente técnicas também estavam vinculadas à produção e valorização de território urbano.[6]

O caso do Pinheiros é especialmente revelador. Pesquisas posteriores sobre a urbanização paulistana mostram como a canalização, retificação e drenagem das margens permitiram transformar enormes áreas sujeitas a inundação em terrenos incorporáveis ao mercado urbano.[7]

Onde havia água, poderia existir terra.

Onde havia terra, poderia existir propriedade.

Onde havia várzea, poderiam existir avenidas, bairros e novos ativos imobiliários.

A cidade não apenas cresceu ao redor do rio.

Ela reconstruiu o rio para permitir que a cidade continuasse crescendo.

A natureza como infraestrutura

As Marginais consolidaram fisicamente essa transformação.

Tietê e Pinheiros continuam atravessando algumas das áreas mais importantes da metrópole, mas sua presença urbana foi progressivamente reduzida à condição de canal.

Entre pistas expressas, barreiras viárias e extensas infraestruturas, o rio passa a ser percebido menos como ecossistema e mais como elemento técnico responsável por transportar água para fora da cidade.

São Paulo não eliminou seus rios.

Transformou-os em infraestrutura para uma cidade que gostaria de esquecer que eles existem.

E é aqui que Night City começa a parecer estranhamente familiar.

Não porque possua um Tietê digital.

Mas porque as duas cidades podem ser observadas a partir de uma mesma lógica: quando território, natureza e infraestrutura entram em conflito com as necessidades de valorização e circulação do capital, o território é transformado.

Henri Lefebvre chamou atenção para o fato de que o espaço urbano é socialmente produzido.[8] David Harvey avançou essa leitura ao demonstrar como a urbanização constitui uma dimensão fundamental da própria circulação e absorção de capital.[9]

A cidade não cresce de maneira neutra.

Ela materializa prioridades.

High tech. Low life.

É aqui que o paralelo com o cyberpunk deixa de ser estético.

São Paulo concentra alguns dos maiores centros financeiros, hospitais, universidades, infraestruturas, redes de comunicação, centros logísticos e tecnologias da América Latina.

Ao mesmo tempo, milhões de pessoas convivem diariamente com longos deslocamentos, habitação precária, enchentes, desigualdade de acesso a serviços públicos e territórios submetidos a diferentes graus de vulnerabilidade.

A tecnologia não eliminou a desigualdade.

Ela aprendeu a coexistir perfeitamente com ela.

Esse é um dos princípios fundamentais do cyberpunk.

A distopia não acontece porque a tecnologia falhou.

Ela acontece porque a tecnologia funciona dentro de uma sociedade profundamente desigual.

Night City leva essa contradição ao extremo. Seus arranha-céus corporativos, próteses cibernéticas, sistemas de vigilância e veículos futuristas convivem com uma população descartável para a própria máquina econômica que sustenta a cidade.

São Paulo não é Night City.

Mas talvez não precise ser.

Porque o cyberpunk nunca foi realmente uma previsão sobre carros voadores e braços mecânicos.

É uma crítica ao presente projetada no futuro.

O futuro já aconteceu

Durante décadas, a ficção científica imaginou cidades onde empresas controlariam quantidades absurdas de informação, sistemas digitais acompanhariam constantemente nossos comportamentos, algoritmos determinariam aquilo que vemos e enormes corporações tecnológicas alcançariam poderes comparáveis aos de instituições públicas.

Boa parte disso deixou de parecer ficção.

O mais perturbador no cyberpunk não é perceber o que ele acertou.

É perceber aquilo que nunca precisou prever.

A desigualdade.

A especulação imobiliária.

A segregação urbana.

A transformação da natureza em mercadoria.

A existência de territórios sacrificados para que outros possam prosperar.

Talvez seja por isso que Pondsmith tenha reconhecido algo de cyberpunk em São Paulo.

Não porque a Avenida Paulista tenha neon suficiente.

Mas porque aqui conseguimos observar, na mesma paisagem, o extraordinário desenvolvimento das forças produtivas e a brutal desigualdade na distribuição dos benefícios que elas produzem.

High tech. Low life.

Night City talvez não tenha sido inspirada em São Paulo da maneira simplista sugerida pelo título.

A relação é mais interessante do que isso.

As duas cidades são produtos de contextos radicalmente diferentes, uma real e outra ficcional, mas tornam visíveis algumas das mesmas contradições: tecnologia e precariedade, riqueza e exclusão, infraestrutura e abandono, natureza e mercadoria.

O cyberpunk costuma ser apresentado como uma advertência sobre aquilo em que nossas cidades podem se transformar.

São Paulo sugere uma interpretação mais desconfortável.

Talvez parte dessa distopia não esteja esperando por nós no futuro.

Talvez nós já tenhamos concretado os rios dela.


Fontes e referências

Cyberpunk e Night City

[1] PONDSMITH, Mike. Cyberpunk 2020. Berkeley: R. Talsorian Games, 1990.

PONDSMITH, Mike. Cyberpunk RED. Renton: R. Talsorian Games, 2020.

CD PROJEKT RED. The World of Cyberpunk 2077. Milwaukie: Dark Horse Books, 2020.

[2] PONDSMITH, Mike. Declarações sobre Rio de Janeiro e São Paulo reproduzidas pela imprensa especializada em 2019. Pondsmith descreveu as duas como as cidades mais “cyberpunk” que havia visitado.

[3] PONDSMITH, Mike. Declarações sobre as referências urbanas de Night City reproduzidas em cobertura sobre a continuação de Cyberpunk 2077. Entre as influências citadas aparecem San Francisco, Los Angeles, Singapura, São Paulo e Pequim.

São Paulo e seus rios

[4] SÃO PAULO (Município). Documentação histórica sobre a utilização dos rios paulistanos para transporte, comércio, pesca, lavagem e lazer, e sobre sua posterior transformação hidráulica.

[5] SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal de Cultura. As enchentes na história de São Paulo. O levantamento registra os projetos de canalização desde o fim do século XIX e a concessão de 1927 à Light para a transformação do Pinheiros.

[6] SEABRA, Odette Carvalho de Lima. Os meandros dos rios nos meandros do poder: Tietê e Pinheiros — valorização dos rios e das várzeas na cidade de São Paulo. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo, 1987.

[7] FIX, Mariana et al. Discussão sobre a máquina de crescimento urbano paulistana e as operações da Light nas várzeas do Pinheiros. Estudos Avançados, 2022. A análise registra a apropriação e posterior valorização de extensas áreas associadas à canalização, alargamento e retificação do rio.

Referencial teórico

[8] LEFEBVRE, Henri. The Production of Space. Oxford: Blackwell, 1991.

[9] HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013.

SMITH, Neil. Desenvolvimento desigual: natureza, capital e a produção do espaço. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988.

JORGE, Janes. Tietê, o rio que a cidade perdeu: São Paulo, 1890–1940. São Paulo: Alameda, 2006.