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Manifesto

Por que é tão difícil se identificar com a profissão de arquiteto? Um olhar histórico e crítico sobre a arquitetura, as cidades e a quem elas servem.

Desde que me formei em Arquitetura e entrei no mercado de trabalho, senti uma grande dificuldade em me identificar com a profissão de arquiteto e urbanista. Existe uma distância estranha entre a arquitetura que aprendemos a imaginar e aquela que encontramos quando começamos, de fato, a trabalhar.

Na faculdade, somos apresentados à arquitetura como uma prática capaz de transformar a sociedade. Estudamos cidades, habitação, história, tecnologia e as diferentes formas pelas quais o espaço interfere na vida humana. Paralelamente, vende-se ao estudante o sonho de uma arquitetura autoral, crítica e dotada de propósito. Quando esse mesmo estudante precisa entrar no mercado de trabalho, porém, encontra uma realidade bastante diferente: jornadas extensas, informalidade, baixos salários, responsabilidades incompatíveis com a experiência e uma formação que nem sempre o preparou para compreender as relações econômicas que determinam aquilo que será ou não construído.

Existe, portanto, uma contradição fundamental entre aquilo que aprendemos que a arquitetura pode ser e aquilo que o mercado permite que ela seja.

O resultado é uma profissão cujo acesso permanece profundamente desigual. Para uma parcela privilegiada da sociedade, arquitetura significa projeto personalizado, conforto ambiental, materiais cuidadosamente especificados, paisagismo, iluminação e espaços pensados em detalhe. Para grande parte da classe trabalhadora, entretanto, casas, escolas, hospitais e espaços públicos são produzidos sob outra lógica: construir o máximo possível gastando o mínimo possível.

A diferença não é apenas estética. É política. E talvez a culpa não seja apenas da academia.

Do território à mercadoria

Para entender como chegamos até aqui, precisamos olhar para a própria formação das cidades. Os primeiros grandes assentamentos humanos estabeleceram relações profundas com rios, solos férteis, rotas de circulação e outros sistemas naturais necessários à reprodução material da vida. Essas sociedades jamais constituíram uma relação universalmente “harmônica” com a natureza — a própria história humana é marcada por conflitos, transformações ambientais e diferentes estruturas de poder —, mas o território permaneceu como condição concreta de sobrevivência.

Com o desenvolvimento das cidades, a transformação das relações de propriedade e, posteriormente, a consolidação do capitalismo industrial, essa relação adquiriu uma nova dimensão. Terra, recursos naturais e o próprio espaço urbano passaram progressivamente a integrar os processos de produção, circulação e valorização do capital.

Henri Lefebvre propôs compreender o espaço não como um palco neutro onde a sociedade simplesmente acontece, mas como algo socialmente produzido.[1] A cidade que construímos é, portanto, resultado das relações econômicas, políticas e culturais da sociedade que a produz.

A cidade deixou de ser apenas o lugar onde a sociedade acontece. Ela própria tornou-se um produto.

A Revolução Industrial e o cercamento

A Revolução Industrial acelerou radicalmente essa transformação. Os processos de cercamento das terras comunais inglesas, analisados por Marx ao discutir a chamada acumulação primitiva, contribuíram para separar parcelas crescentes da população das condições diretas de subsistência e consolidar uma força de trabalho dependente da venda de sua própria capacidade de trabalhar.[2]

A industrialização reorganizou o território em escala inédita. Fábricas, ferrovias, portos, bairros operários, centros comerciais e, posteriormente, grandes sistemas rodoviários passaram a estruturar cidades segundo necessidades específicas de produção e circulação. A desigualdade ganhou uma nova geografia. A cidade tornou-se simultaneamente local de reprodução da vida, infraestrutura produtiva e ativo financeiro.

É dentro dessa estrutura que a arquitetura opera. Um arquiteto pode desenhar uma casa, uma escola, uma praça ou um hospital. Mas nenhum desses objetos existe isoladamente das relações materiais que determinam onde será construído, quanto poderá custar, quem terá acesso a ele e, principalmente, a quem aquele espaço deverá servir.

David Harvey demonstra como a urbanização pode funcionar como uma importante esfera de absorção e circulação de capital, transformando a produção da cidade em parte fundamental do funcionamento da economia.[3] Neil Smith, por sua vez, mostrou como até aquilo que chamamos de “natureza” passa a ser transformado e produzido pelas relações sociais e econômicas.[4]

Isso significa que nenhuma intervenção arquitetônica começa verdadeiramente na folha em branco. Antes do primeiro risco existe a propriedade. Existe o preço da terra. Existe legislação. Existe crédito. Existe trabalho. Existe poder. Existe alguém decidindo o que pode ser construído — e alguém decidindo para quem aquilo será construído.

A arquitetura é um dos campos onde a disputa pela cidade se materializa.

O problema nunca foi somente desenhar melhor

Existe uma tendência confortável dentro da profissão de imaginar que muitos dos problemas urbanos poderiam ser resolvidos simplesmente através de projetos melhores. Mais habitação bem desenhada. Mais parques. Mais mobilidade. Mais espaços públicos. Mais sustentabilidade. Todas essas coisas importam — mas nenhuma delas existe fora da estrutura que produz a cidade.

Um parque pode recuperar um território e, simultaneamente, acelerar sua valorização imobiliária. Uma nova infraestrutura pode melhorar a mobilidade de uma população e, ao mesmo tempo, expulsá-la através do aumento do preço da terra. Um edifício pode alcançar excelentes indicadores ambientais enquanto permanece completamente inacessível para a maior parte da população.

A qualidade arquitetônica não desaparece diante dessas contradições. Mas também não consegue resolvê-las sozinha. Porque não existe projeto tecnicamente neutro quando o próprio território é disputado.

Não precisa ser assim

Reconhecer essa contradição não significa abandonar a arquitetura. Significa levá-la a sério. A arquitetura possui a capacidade concreta de transformar a forma como vivemos, circulamos, trabalhamos, descansamos e nos relacionamos. Uma parede, uma rua, uma praça, um edifício ou uma infraestrutura nunca são apenas objetos físicos: eles organizam comportamentos, distribuem acessos e determinam possibilidades.

Lefebvre chamou atenção para a necessidade de superar uma compreensão da cidade reduzida à lógica do mercado e recuperar aquilo que chamou de direito à cidade — não simplesmente o direito de acessar aquilo que já existe, mas o direito coletivo de participar da produção de uma cidade diferente.[5]

É nesse sentido que acredito que uma arquitetura verdadeiramente democrática precisa começar questionando as condições materiais que produzem o espaço. Não se trata de imaginar a profissão sob um prisma infantil de heróis e vilões. Trata-se de olhar para aquilo que construímos e perguntar: está certa a forma como estamos vivendo, morando, construindo e interagindo com nossas cidades?

E, para nós que projetamos, existe uma pergunta ainda mais desconfortável. Quando desenhamos uma edificação, qual lógica estamos priorizando? Aquela que reduz o espaço à maior eficiência econômica possível? Ou aquela que procura compreender as necessidades reais das pessoas que irão habitá-lo?

A arquitetura nunca esteve fora da política. Talvez tenhamos apenas aprendido a desenhá-la como se estivesse. E se toda arquitetura materializa uma determinada forma de organizar o mundo, projetar também significa tomar posição diante dele.

Talvez arquitetura não seja simplesmente desenhar o futuro. Talvez seja disputar qual futuro será possível construir.

Pense. Revolucione. Projete.

Fontes e referências

  1. [1]LEFEBVRE, Henri. The Production of Space. Oxford: Blackwell, 1991.
  2. [2]MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013.
  3. [3]HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005.
  4. [4]SMITH, Neil. Desenvolvimento desigual: natureza, capital e a produção do espaço. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988.
  5. [5]LEFEBVRE, Henri. A revolução urbana. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001.

Leituras complementares

  • ENGELS, Friedrich. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 2010.
  • HARVEY, David. Cidades rebeldes: do direito à cidade à revolução urbana. São Paulo: Boitempo, 2014.