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Linha editorial · Praxis

Manifesto

Por que é tão difícil se identificar com a profissão de arquiteto? Um olhar histórico e crítico sobre a arquitetura, as cidades e a quem elas servem.

Desde que me formei em Arquitetura e entrei no mercado de trabalho, senti uma grande dificuldade em me identificar com a profissão de arquiteto e urbanista. Na faculdade, a tradição do ensino nas décadas passadas era pautada pelos projetos feitos à mão, com papel e caneta nanquim. Hoje, aprendemos a projetar utilizando softwares pagos, predominantemente da Autodesk, que detém o monopólio no setor, o que contribui para a elitização do acesso à informação.

Alinhado a isso, vende-se o sonho ideal de uma arquitetura com propósito que, na maioria das vezes, não reflete a realidade em que vivemos. Quando um estudante é forçado a entrar no mercado de trabalho, na esmagadora maioria das vezes, acaba virando um profissional informal que não está preparado para os desafios de se atuar na área.

O resultado desses fatores é um cenário onde a arquitetura se tornou uma regalia de uma elite capaz de custear projetos elaborados e luxuosos, os quais refletem um padrão socioeconômico imposto pelo sistema. Enquanto isso, a classe trabalhadora se encontra em um patamar no qual suas edificações — casas, escolas, hospitais e espaços públicos, entre outros — são construídas para economizar o máximo de dinheiro possível, criando uma arquitetura genérica, sem vida e com pouca função social.

Será que a culpa de tudo isso é só da academia?

Do rio à metrópole

Para entender melhor, precisamos olhar para o passado e compreender como as cidades cresceram e se desenvolveram com o tempo. O início da civilização foi marcado pela transição do nomadismo para o estabelecimento em comunidades. Esses agrupamentos tiveram seu estopim próximos a rios ou lagos, que auxiliavam no seu crescimento, deslocamento e acesso a recursos naturais.

Desde o princípio, essas comunidades viviam em harmonia entre si e com a natureza, em uma relação social de cooperação e de coexistência com os recursos do planeta. Contudo, com o passar dos séculos, o crescimento populacional, o surgimento das grandes metrópoles e as novas relações materiais entre os povos, viu-se a necessidade de um novo método de produção de bens de consumo, diferente do modelo de cooperação prévio.

A Revolução Industrial e o cercamento

A Revolução Industrial foi esse momento: um novo método de produção em massa foi implementado, revolucionando a sociedade em todos os seus aspectos. A lógica agora era a da eficiência máxima e do lucro. A extração de recursos naturais tornou-se predatória e, alinhada a isso, foram implementadas as leis de cercamento dos campos (enclosures), que privatizaram as áreas comunais para uma elite burguesa que se consolidava. Criou-se, assim, uma nova classe trabalhadora que, para garantir o direito de ter onde morar, foi obrigada a pagar aos novos proprietários das terras, sujeitando-se ao que fosse preciso para sobreviver.

A evolução disso é o que vemos hoje. A arquitetura virou um palco para a luta entre essas duas classes, e seu papel atual acaba sendo o de segregar ainda mais as desigualdades sociais e econômicas.

Não precisa ser assim

A verdade é que não precisa ser assim. Hoje, vejo que a arquitetura pode ser democrática: ela não vê raça, cor, gênero ou nacionalidade. É uma prática que tem o poder de revolucionar a forma como vivemos. Através dela, podemos olhar para um futuro no qual superamos o sistema atual — não sob um prisma maniqueísta de “super-herói contra vilão”, mas analisando de forma empírica, sem juízos de valor, para nos perguntar: está certa a forma como estamos vivendo, morando, construindo e interagindo com as nossas cidades?

Você, que também é arquiteto, convido à reflexão: quando pensa no projeto de uma edificação, qual lógica você prioriza? Economizar o máximo possível ou criar algo que atenda de fato às necessidades de quem vai utilizar o espaço?

Pense, revolucione, projete!