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Edição 03tecnologia15 de setembro de 202616 min de leitura

01 - A cidade das máquinas

O que a construção de cidades para máquinas revela sobre o futuro das nossas próprias cidades.

A nuvem parece abstrata, mas ocupa território, consome energia, utiliza água e transforma cidades. A partir da construção da AI City em Eldorado do Sul e de uma improvável comparação com a cidade das máquinas de Matrix, este artigo investiga a arquitetura por trás dos Data Centers e questiona o papel do Brasil nessa nova infraestrutura digital: estamos construindo soberania tecnológica ou apenas atualizando nossa antiga posição de colônia?

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Lucas Leite

Praxis

01 - A cidade das máquinas

01 - A cidade das máquinas

Para abrir esse artigo você precisou olhar para a tela do seu celular, computador ou tablet.

Enquanto você olha para essa tela, ela também carrega sensores capazes de olhar de volta para você.

Mais que isso, você encontrou essa página através de alguma rede social ou de um mecanismo de busca.

Esses sites e aplicativos são capazes de registrar seu nome, sua idade, seus interesses, suas pesquisas, seus hábitos e uma infinidade de informações sobre você. Tudo isso são dados que estão sendo armazenados em algum lugar.

A nuvem.

É um conceito complexo de se entender de primeira, um ambiente abstrato que parece ter capacidade para guardar e processar uma quantidade praticamente infinita de informações.

A verdade é que ela é muito mais simples e material do que foi vendida para nós.

A nuvem são computadores.

Milhares deles.

A edificação responsável por abrigar essas máquinas são os Data Centers. Regiões imensas compostas por galpões onde essas máquinas funcionam simultaneamente, consumindo energia em uma escala comparável à de cidades inteiras.

Assim como seu dispositivo eletrônico pessoal, seus processadores podem operar em temperaturas próximas dos 100°C. [1]

Consumo de energia.

Calor excessivo.

De alguma forma é preciso abastecer e resfriar essas máquinas.

Algumas regiões com concentração de Data Centers nos EUA estão sendo impactadas pela enorme nova demanda energética e por altas nos custos da rede elétrica. [2] Mas energia não é o único recurso envolvido. Alguns sistemas de refrigeração de Data Centers podem consumir enormes quantidades de água. Dependendo da tecnologia utilizada, essa água precisa atender a padrões específicos de qualidade para evitar corrosão, incrustações e danos aos sistemas. [3]

Água que a gente poderia estar bebendo.

Talvez chamar essas instalações de “Data Centers” seja pouco. Algumas delas já possuem escala territorial suficiente para receber outro nome.

Cidade.

A Ficção

Em 1999, o filme Matrix, das diretoras Lana e Lilly Wachowski, estreou nos cinemas. Nos anos seguintes, esse universo seria expandido e apresentaria uma ideia curiosa: um mundo onde as máquinas construíram sua própria cidade.

Uma cidade que não tem as mesmas necessidades que as nossas e nem o mesmo tecido urbano que o nosso. Não tem hospitais, nem escolas, casas ou praças. Em contrapartida, precisa de energia, conectividade e refrigeração.

Seu nome era 01.

A cidade das máquinas.

Pensar nessa hipótese no início do milênio parecia algo absurdo em todos os sentidos. Como seria possível termos uma cidade totalmente dedicada a abrigar e atender às necessidades de computadores?

É claro que Matrix leva essa ideia ao extremo, se tratando de uma ficção científica.

Na história apresentada em The Animatrix: The Second Renaissance, as máquinas desenvolvem consciência e passam a reivindicar direitos. O conflito com os humanos cresce, elas são perseguidas e expulsas da sociedade humana, sendo forçadas a encontrar seu próprio lugar no mundo. [4]

E assim o fazem.

No meio de uma região inóspita e desértica, imprópria para abrigar uma cidade como conhecemos, pela falta de recursos e logística, as máquinas constroem seu lar, sua nação.

Zero.

Um.

O nome vem da linguagem elementar da computação.

Uma sociedade feita a partir e para computadores, com dinâmicas que desafiam tudo que sabemos sobre arquitetura, urbanismo e cidades.

Até chegar o momento em que estamos.

A ficção de Matrix e a realidade começam a dividir pequenas semelhanças. Ainda pequenas, mas suficientes para levantar algumas questões.

Eldorado do Sul.

Rio Grande do Sul.

Em maio de 2024, a cidade foi uma das mais atingidas pelas enchentes que assolaram o estado. Estimativas divulgadas na época apontavam que cerca de 97% da área urbana havia sido inundada e aproximadamente 30 mil moradores haviam sido afetados. [5]

Mais de dois anos depois, a cidade ainda passa por um processo de reconstrução de sua infraestrutura e pela implantação de um novo sistema de proteção contra futuras enchentes. [6]

Enquanto Eldorado estava reconstruindo sua cidade, outro projeto começava a ocupar seu território. Uma empresa de Data Centers chamada Scala pavimentava o plano de construir ali uma nova cidade. Em novembro de 2024, a prefeitura, o Governo do Rio Grande do Sul e a empresa assinaram um protocolo de intenções para o empreendimento, anunciado com investimento inicial de R$ 3 bilhões. [7]

Seu nome:

AI City.

A Realidade

Um ano depois da enchente, alguns moradores de Eldorado do Sul ainda esperavam por soluções habitacionais definitivas. O programa Compra Assistida foi uma das estratégias utilizadas para retirar famílias das áreas de risco e permitir a aquisição de novas moradias. Em julho de 2026, a prefeitura afirmava que mais de 1.360 famílias já haviam sido retiradas dessas áreas através do programa. [6]

Maria Nelly Andersen ainda esperava pela sua vez.

Segundo reportagem de Laís Martins para o Intercept Brasil, ela continuava morando em uma casa com rachaduras na estrutura e com a marca da água mostrando a altura que a enchente havia alcançado. [8]

A repórter questiona a moradora de Eldorado do Sul se ela conhece o projeto da “AI City”.

Não conhecia.

Quando explicaram do que se tratava, sua primeira reação foi perguntar:

“Ajuda para não vir mais a enchente?” [8]

Poucos meses depois da enchente, a Scala adquiriu uma área de 3,5 milhões de metros quadrados próxima à BR-290 para construir seu novo complexo de Data Centers. Segundo a escritura consultada pelo Intercept, o terreno foi comprado em setembro de 2024 por R$ 38 milhões. [8]

E a localização foi escolhida cuidadosamente.

O terreno que futuramente vai receber a cidade das máquinas brasileira fica em uma região estratégica do ponto de vista logístico devido à sua proximidade com grandes rodovias e infraestrutura de abastecimento de energia.

E existe uma característica especialmente importante:

Em 2024 a água não chegou lá.

A área escolhida para a AI City fica em uma região mais elevada de Eldorado do Sul e permaneceu fora da inundação que atingiu o município em maio de 2024. [8]

Alinhado a isso, em dezembro de 2024, a Lei Municipal nº 5.949 ampliou o perímetro urbano de Eldorado do Sul para incluir a área destinada à nova infraestrutura digital. [9]

É importante deixar claro que isso não significa que a Scala ocupou terrenos destinados às famílias atingidas pela enchente ou que aquela área necessariamente deveria ter sido utilizada para construir novas moradias.

A questão aqui é outra.

Do ponto de vista urbanístico e arquitetônico, depois da enchente, Eldorado do Sul precisava repensar sua relação com o próprio território.

Para a cidade que já existia, a solução encontrada pelo poder público passa pela reconstrução das casas, sistemas de drenagem, estações de bombeamento e pela construção de uma grande infraestrutura de proteção contra novas enchentes. [6]

A cidade precisa ser adaptada para continuar existindo naquele território.

Para a cidade que ainda não existia, o caminho foi diferente. Ela pôde escolher seu território antes de ser construída.

Uma cidade precisa construir estruturas para se proteger da água, a outra escolheu um lugar onde a água não chegou — e talvez essa seja uma das primeiras diferenças entre construir cidades para pessoas e construir cidades para máquinas.

O capital necessário para construir uma nova infraestrutura pode escolher onde ela vai existir, mas as pessoas que já vivem ali carregam o território que herdaram.

E acima de tudo, ainda era preciso encontrar uma forma de alimentar as máquinas.

Então, afinal, qual a estrutura necessária para comportar um Data Center e, mais especificamente, a “AI City”?

A Arquitetura

Para entender a arquitetura desse tipo de construção precisamos primeiro esquecer um pouco da forma como normalmente pensamos um edifício.

Um hospital é projetado para pacientes, médicos e enfermeiros, assim como uma escola para alunos e professores, e as casas para seus moradores.

O principal usuário de um Data Center é uma máquina — e isso muda praticamente tudo.

O coração desses edifícios são grandes ambientes chamados Data Halls. É ali que ficam os racks, estruturas onde os servidores são empilhados e organizados em corredores. [10]

Essas máquinas precisam funcionar 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Enquanto houver alguém assistindo a um vídeo, fazendo uma pesquisa, salvando um arquivo na nuvem, comprando alguma coisa pela internet ou fazendo uma pergunta para uma inteligência artificial, existem computadores em algum lugar trabalhando para que isso aconteça.

E computadores precisam de energia.

Muita energia.

Por isso, uma parcela enorme da infraestrutura de um Data Center existe para garantir que a eletricidade continue chegando até os servidores. Sistemas de alimentação, distribuição elétrica, UPS, baterias, geradores e diferentes níveis de redundância fazem parte dessa arquitetura. [10]

Em uma casa, quando falta energia, a luz apaga, mas no Data Center isso não pode simplesmente acontecer. Grande parte da arquitetura desses edifícios existe para impedir que eles parem de funcionar.

Mas existe outro problema, talvez o principal.

Toda essa energia utilizada pelos computadores acaba produzindo calor, e assim nós voltamos ao início desse artigo.

Calor excessivo.

Se milhares de processadores trabalham simultaneamente dentro de um mesmo edifício, é necessário retirar esse calor de alguma forma. Por isso, ao lado da infraestrutura elétrica existe outra estrutura tão importante quanto ela: a refrigeração.

Sistemas de climatização movimentam grandes quantidades de ar e os corredores podem ser organizados para separar o ar frio do ar quente, reduzindo a recirculação e aumentando a eficiência do resfriamento. Em instalações de maior densidade, também existem soluções de refrigeração líquida. [10]

Dependendo da tecnologia utilizada, entram nessa equação bombas, tubulações, trocadores de calor, chillers, torres de resfriamento e água. [3]

Muita coisa precisa funcionar para que aqueles pequenos computadores continuem funcionando, e se algum desses sistemas falhar, outro precisa estar pronto para assumir seu lugar.

Aos poucos, aquele galpão aparentemente simples começa a revelar outra coisa:

O Data Center não é apenas um edifício que contém infraestrutura, o próprio edifício é uma infraestrutura.

Agora precisamos aumentar a escala.

Imagine toda essa estrutura funcionando em um prédio, depois em outro.

E outro.

E outro.

Todos conectados. Todos compartilhando sistemas de energia, comunicação, segurança e circulação.

É nesse momento que o Data Center começa a deixar de ser apenas um edifício e passa a se aproximar da escala de um território.

É exatamente essa a proposta da AI City.

O projeto da Scala não prevê simplesmente a construção de um único galpão cheio de computadores, mas um grande campus composto por diferentes edifícios e toda a infraestrutura necessária para mantê-los funcionando.

E novos edifícios podem ser adicionados conforme a capacidade do complexo aumenta.

De repente, aquilo que parecia apenas um conjunto de galpões começa a apresentar algumas características que normalmente associamos a uma cidade.

Existe uma rede de energia, uma rede de comunicação, vias, edifícios, segurança, infraestrutura, manutenção.

Existe até uma população, só que seus habitantes não dormem, eles processam dados. Talvez seja por isso que o nome “AI City” seja mais preciso do que parece.

E assim voltamos à cidade das máquinas.

E isso muda a forma de pensar o projeto, porque quando sua população é formada por computadores, energia, água, território e infraestrutura deixam de ser apenas elementos necessários para construir a cidade.

Passam a ser aquilo que mantém seus habitantes vivos.

1,8 gigawatt.

Essa é a demanda energética prevista para a AI City até 2033. Em uma possível expansão futura, o empreendimento pode chegar a 5 gigawatts. [11]

São números difíceis de visualizar, mas a escala começa a ficar mais clara quando comparamos com o sistema que já existe. Segundo o Ministério de Minas e Energia, caso o projeto alcance os 5 GW, sua demanda representaria algo próximo de 20% da carga máxima atual de toda a Região Sul do Brasil. [11]

Uma única cidade de máquinas.

Para tornar isso possível, não basta ligar os edifícios à rede elétrica de Eldorado do Sul. Um empreendimento desse tamanho exige uma infraestrutura energética de outra escala. Em 2025, o Ministério de Minas e Energia reconheceu a alternativa técnica para conectar o Data Center Eldorado do Sul diretamente à Rede Básica do Sistema Interligado Nacional. [12]

Isso significa que a AI City não transforma apenas o terreno onde será construída. Sua existência passa a fazer parte do planejamento da infraestrutura energética de uma região inteira.

E o Brasil não é o primeiro país a enfrentar essa questão.

Nos Estados Unidos, regiões que concentraram grandes quantidades de Data Centers começaram a precisar expandir rapidamente sua infraestrutura elétrica para atender à nova demanda. O problema deixou de ser apenas encontrar energia suficiente para alimentar essas máquinas e passou a envolver uma pergunta mais complicada:

Quem paga pela infraestrutura necessária para isso?

Na Virgínia, um dos maiores mercados de Data Centers do mundo, um estudo da Joint Legislative Audit and Review Commission concluiu que o crescimento da demanda dessas instalações exigirá nova capacidade de geração e transmissão e poderá elevar os custos também para consumidores residenciais. Dependendo do cenário analisado, o estudo estimou aumentos relacionados à geração e transmissão de aproximadamente US$ 14 a US$ 37 por mês para um consumidor residencial típico até 2040. [2]

É uma discussão que parece distante de Eldorado do Sul, mas que começa a ficar importante quando lembramos da escala prevista para a AI City.

A cidade das máquinas precisa de energia.

Mas ela também precisa ser resfriada.

O impacto hídrico de um empreendimento dessa escala passou a ser questionado por organizações que analisaram o projeto.

Em 2026, uma missão do Conselho Nacional dos Direitos Humanos estimou que, considerando uma capacidade de 1,8 GW, o consumo potencial de água poderia chegar a aproximadamente 2.160 metros cúbicos por dia, algo equivalente a cerca de 32% do consumo diário do município de Eldorado do Sul. [13]

É importante fazer uma distinção aqui.

Essa é uma estimativa utilizada pelo CNDH, não o consumo real medido da AI City, que ainda não está em operação.

Mas a discussão sobre água em Data Centers não termina na quantidade que entra diretamente nos sistemas de refrigeração. A eletricidade que abastece essas instalações também possui uma origem, e produzir energia possui seus próprios impactos sobre o território.

A nuvem começa a ficar cada vez menos abstrata.

Para guardar e processar informações precisamos de servidores. Para manter servidores funcionando precisamos de edifícios. Para manter esses edifícios funcionando precisamos de energia, sistemas de refrigeração, redes de transmissão, fibras ópticas e território.

Cada clique possui uma infraestrutura física em algum lugar.

E essa infraestrutura não existe isolada das cidades ao seu redor.

Próximo ao território destinado à AI City existem agricultores, assentamentos e comunidades indígenas que já possuíam suas próprias relações com aquela região antes de qualquer computador chegar ali. A reportagem do Intercept registrou, por exemplo, que moradores Mbyá-Guarani da Tekoa Pekuruty, localizada a poucos quilômetros do empreendimento, afirmavam em 2025 não terem sido informados sobre a AI City. [8]

Em 2026, a missão do Conselho Nacional dos Direitos Humanos voltou a registrar preocupações de comunidades da região com a falta de informação e participação nas discussões sobre os impactos do empreendimento. [13]

Isso cria uma contradição interessante.

Estamos construindo uma infraestrutura capaz de processar uma quantidade gigantesca de informações enquanto parte das pessoas que vivem ao lado dela afirma não ter recebido informações suficientes sobre aquilo que está sendo construído.

A questão, portanto, deixa de ser apenas se existe energia ou água suficiente para construir a AI City.

Precisamos perguntar quem disponibiliza esses recursos, quem recebe os benefícios produzidos por essa infraestrutura e quem precisa conviver com seus impactos.

Porque talvez o recurso mais importante que um Data Center processe não seja energia ou água.

São dados.

Soberania Digital

É fato que, apesar de serem extremamente caros do ponto de vista financeiro, exigentes do ponto de vista energético e capazes de produzir impactos ambientais e territoriais significativos, os Data Centers se tornaram uma infraestrutura estratégica para a economia digital.

A capacidade de uma nação armazenar, processar e manter controle sobre seus próprios dados passou a fazer parte da discussão sobre soberania. O próprio Governo Federal trata Data Centers, computação em nuvem e semicondutores como infraestruturas estratégicas e vem desenvolvendo iniciativas para aumentar o controle nacional sobre essas tecnologias. [14]

A importância que existe para uma nação armazenar, processar e controlar os próprios dados é a sobrevivência na selva.

Selva que está lotada de leões.

Para que possamos prosperar, é necessário investir nessa infraestrutura.

Mas construir Data Centers dentro do território brasileiro não significa automaticamente conquistar soberania tecnológica.

A quem pertencem esses Data Centers que vão ser espalhados pelo nosso território?

De quem é a tecnologia que vai rechear seus interiores?

No caso da própria Scala, seu fundador e maior investidor é a DigitalBridge, gestora global de investimentos em infraestrutura digital. [15]

E o problema não termina na propriedade das empresas.

Um estudo elaborado para o Governo Federal sobre a cadeia de Data Centers no Brasil identificou que, embora exista montagem nacional de alguns equipamentos, grande parte dos subcomponentes utilizados em servidores e sistemas de armazenamento, incluindo semicondutores, é importada. O estudo também identificou equipamentos de rede, como roteadores e switches, entre os componentes dependentes de fornecedores externos. [16]

O próprio Governo Federal reconhece essa dependência: em 2025, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação afirmou que mais de 85% dos chips utilizados no Brasil são importados. [17]

Ou seja, uma parcela decisiva da tecnologia necessária para fazer essa infraestrutura funcionar ainda não pertence ao Brasil.

No ciclo internacional do trabalho, corremos o risco de atualizar uma velha característica de colônia.

Hoje, ao invés de minas de metais preciosos, temos nuvens.

Ao invés de ouro, temos dados.

E os mineradores desses dados somos nós.

O Brasil está utilizando território, energia e infraestrutura pública e regulatória para se inserir na economia digital como proprietário da tecnologia — ou como território onde o capital tecnológico estrangeiro instala sua infraestrutura?

Talvez chamar tudo isso de nuvem tenha sido uma ótima forma de nos fazer esquecer que ela ocupa território.

Depois de Eldorado do Sul, fica difícil continuar olhando para ela como alguma coisa abstrata.

A nuvem nunca esteve no céu.

Ela sempre esteve no chão.


Referências

[1] Intel. Information about Temperature for Intel Processors. https://www.intel.com/content/www/us/en/support/articles/000005597/processors.html

[2] Joint Legislative Audit and Review Commission — Virginia. Data Centers in Virginia. 2024. https://jlarc.virginia.gov/landing-2024-data-centers-in-virginia.asp

[3] U.S. Department of Energy. Cooling Water Efficiency Opportunities for Federal Data Centers. https://www.energy.gov/cmei/femp/cooling-water-efficiency-opportunities-federal-data-centers

[4] The Animatrix. The Second Renaissance — Parts I e II. 2003. https://play.google.com/store/tv/show/The_Animatrix?id=Qy5xhbrYg2U

[5] Agência Brasil. Revolta e incerteza marcam volta de alagamentos em Eldorado do Sul. 21 jun. 2024. https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-brasil/2024/06/21/revolta-e-incerteza-marcam-volta-de-alagamentos-em-eldorado-do-sul.htm

[6] Prefeitura de Eldorado do Sul. Eldorado do Sul apresenta à comunidade o Anteprojeto do Dique de Proteção Contra Enchentes. 7 jul. 2026. https://www.eldorado.rs.gov.br/portal/noticias/0/3/5407/eldorado-do-sul-apresenta-a-comunidade-o-anteprojeto-do-dique-de-protecao-contra-enchentes

[7] Prefeitura de Eldorado do Sul. Eldorado do Sul assina Protocolo de Intenções junto à Scala Data Centers para construção da Scala AI City. 21 nov. 2024. https://www.eldorado.rs.gov.br/portal/noticias/0/3/4671/eldorado-do-sul-assina-protocolo-de-intencoes-junto-a-scala-data-centers-para-construcao-da-scala-ai-city-com-investimento-inicial-de-r-3-bilhoes

[8] MARTINS, Laís. Intercept Brasil. Eldorado do Sul abre portas para projeto bilionário de data center que esconde impactos e ignora população. 23 jun. 2025. https://www.intercept.com.br/2025/06/23/eldorado-do-sul-abre-portas-para-projeto-bilionario-de-data-center/

[9] Lei Municipal nº 5.949/2024 — Eldorado do Sul. Referência sobre a ampliação do perímetro urbano para a implantação do polo tecnológico de Data Centers. https://www.prnewswire.com/br/comunicados-para-a-imprensa/prefeito-de-eldorado-do-sul-rs-sanciona-lei-que-habilita-a-construcao-da-primeira-cidade-de-data-centers-da-america-latina-302335514.html

[10] U.S. Department of Energy. Best Practices Guide for Energy-Efficient Data Center Design. 2024. https://www.energy.gov/sites/default/files/2024-07/best-practice-guide-data-center-design.pdf

[11] Ministério de Minas e Energia. MME abre caminhos para conexão de complexo de data centers à rede básica no RS. 13 maio 2025. https://www.gov.br/mme/pt-br/assuntos/noticias/mme-abre-caminhos-para-conexao-de-complexo-de-data-centers-a-rede-basica-no-rs

[12] Ministério de Minas e Energia. Portaria SNTEP/MME nº 2.942. 2025. https://www.gov.br/mme/pt-br/assuntos/secretarias/sntep/acesso-rede-basica/portarias-publicadas/2025/portaria_sntep_mme_2942/view

[13] Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação / CNDH. CNDH recomenda marco regulatório nacional para data centers. 2026. https://fndc.org.br/cndh-recomenda-marco-regulatorio-nacional-para-data-centers/

[14] Governo Digital — Governo Federal. Nuvem Brasileira. https://www.gov.br/governodigital/pt-br/infraestrutura-nacional-de-dados/ambiente-tecnologico/nuvem/nuvem-brasileira

[15] Scala Data Centers. Governança Corporativa. https://scaladatacenters.com/sustentabilidade/governanca-corporativa/

[16] ABDI / MDIC. Estratégia para a implementação de política pública para atração de Data Centers. 2023. https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/sdic/comercio-e-servicos/comercio/estudo_completo_datacenters_jun2023.pdf

[17] Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Entre chips, dados e inteligência artificial, 2025 marcou o avanço da soberania tecnológica do Brasil. 26 dez. 2025. https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/noticias/2025/12/entre-chips-dados-e-inteligencia-artificial-2025-marcou-o-avanco-da-soberania-tecnologica-do-brasil