Praxis
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Edição 08Urbanismo05 de novembro de 202611 min de leitura

Veraneio para todos

Além do direito as féria, o que fazer com elas?

Como o veraneio compartilhado pode abrir o litoral a mais famílias e aproveitar melhor o que já está construído.

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Lucas Leite

Praxis

Veraneio para todos

Você chega na sexta à noite. A chave abre a mesma porta, os copos estão no armário de sempre e ninguém precisa perguntar a que horas termina a diária. Dá para deixar o chinelo e a toalha ali quando for embora. Quem gosta de voltar ao mesmo lugar sabe o valor disso.

Mas há outra coisa que a chave garante: se você mudar de ideia e só voltar daqui a três meses, a casa vai continuar à sua disposição. Você comprou o direito de voltar e, junto com ele, o direito de deixar aquele endereço esperando.

E se a gente pudesse ficar com a primeira parte?

A praia a que a gente volta

Veranear é passar uma temporada fora de casa, geralmente no verão. Parte da graça é voltar: reconhecer o caminho até a praia, saber onde fazer as compras, ter uma mesa que caiba todo mundo. O vínculo se forma pelo tempo que a gente passa ali. Uma casa própria dá segurança de que haverá lugar na próxima viagem, mas a propriedade é só uma das formas de conseguir essa segurança.

As colônias de férias de trabalhadores partiram de outra ideia. Um sindicato ou uma associação mantém o imóvel; as famílias se revezam nas acomodações. Quem chega pode voltar à mesma praia no verão seguinte. Quem vai embora devolve a chave e abre espaço para outra família. A Constituição reconhece o lazer como direito social e prevê férias anuais remuneradas entre os direitos dos trabalhadores. A colônia dá uma forma concreta a esse direito: um lugar para passar parte do tempo que se conquistou fora do trabalho. É uma infraestrutura de lazer que faz sentido para quem trabalha, seja qual for o salário. [1], [2]

Na prática, o acesso começa antes da viagem. Uma família pode dividir um apartamento com os avós, cozinhar nos dias em que não quiser sair e levar as crianças para brincar mesmo se chover. Poder fazer essas coisas dá à estadia uma qualidade que não se resume à quantidade de leitos. O que vale preservar da casa de veraneio é essa liberdade de fazer o dia no próprio ritmo. A solução coletiva funciona melhor quando oferece espaço para isso, sem obrigar cada família a manter um imóvel inteiro entre um verão e outro.

O mesmo terreno pode receber mais gente

Imagine 50 apartamentos de veraneio ocupados por seus proprietários durante duas semanas do ano, sem empréstimos nem locação. São 100 semanas de hospedagem somadas. Se esses mesmos 50 apartamentos fossem usados em rodízio durante oito semanas, seriam 400 semanas de hospedagem. É um exemplo hipotético, não um dado de ocupação. O que ele mostra é que uma mudança no calendário pode multiplicar por quatro o tempo de uso de um mesmo conjunto, sem ocupar outro terreno.

A comparação importa porque o custo de construir não desaparece quando a casa fecha. O solo já foi ocupado; o concreto foi produzido e transportado; a rua e as redes continuam ali. Quando o revezamento atende mais famílias na estrutura existente e evita que seja preciso construir uma unidade para cada uma, ele aproveita melhor a terra e o que já se investiu nela. Casas particulares também podem ser emprestadas ou alugadas e ganhar uso dessa forma. O que a colônia faz é organizar esse revezamento desde o começo, com regras de acesso que podem ser discutidas coletivamente.

Isso é sustentabilidade do ponto de vista do uso do solo. Mais noites ocupadas podem aumentar o consumo de água e energia e gerar mais deslocamentos. O ganho ambiental fica mais convincente quando o projeto combina hospedagem compartilhada, reaproveitamento de imóveis e acesso por transporte coletivo. Se o município quer ampliar o veraneio, a primeira pergunta pode ser quantas famílias ainda cabem nos prédios que já existem. A segunda é onde vale construir, caso a capacidade existente não dê conta.

Também dá para medir esse aproveitamento sem confundir prédio cheio com sucesso. Quantas famílias diferentes usaram o espaço? Quantas conseguiram ir nas férias escolares? Quantas puderam chegar sem carro? Um edifício pode ter muitas diárias ocupadas e ainda servir a um grupo pequeno que volta com frequência. Para saber se a colônia aproveita melhor o solo e democratiza o veraneio, é preciso olhar tanto para o tempo de ocupação quanto para quem teve a chance de usar o lugar.

Um fim de semana que todo mundo deveria poder ter

Em Gente Grande (2010), cinco amigos de infância voltam à casa no lago onde comemoraram uma vitória no basquete quando eram mais novos. Dessa vez, levam suas famílias. O que dá vontade de viver ali cabe em poucas cenas: os adultos voltam a brincar juntos, as crianças conhecem o lugar onde os pais cresceram como amigos e todo mundo tem tempo de ficar mais um pouco. [3]

Todo mundo deveria poder tirar férias assim. Uma família pode querer voltar à mesma praia, outra pode querer conhecer um lugar novo. O que elas precisam em comum é conseguir combinar os dias de folga, chegar sem gastar boa parte desse tempo no trajeto e encontrar um lugar onde caiba todo mundo. Na arquitetura, isso pode ser tão concreto quanto ter quartos onde cada família consiga descansar e uma mesa grande o suficiente para reunir o grupo depois.

A casa no lago vale, naquele fim de semana, pelo encontro que ela permite. Nos outros fins de semana, poderia servir a outras famílias. Essa é a possibilidade que as colônias de férias tornam concreta: organizar o acesso para que mais gente possa viver dias assim, aproveitando a mesma construção ao longo do ano. Na Praia Grande, a ideia ganhou endereço e entrou no desenho da cidade.

Um endereço de férias para quem trabalha

Na Praia Grande, a Avenida dos Sindicatos dá endereço a essa ideia. Em 1962, quando a área ainda pertencia a São Vicente, o Estado de São Paulo autorizou a doação de terrenos para colônias de férias. Entre as entidades previstas na lei estavam organizações de comerciários, gráficos e trabalhadores da indústria do papel. Em 1967, o Estado autorizou uma concessão gratuita de uso por 30 anos para outra colônia. A decisão de reservar terra perto da praia para o lazer dos trabalhadores veio antes do projeto dos quartos. [4]

A avenida também mostra o que acontece quando a ideia ganha escala. Em 2012, a prefeitura registrava 32 colônias ao longo de cerca de 1,26 quilômetro. É um retrato daquele momento, suficiente para enxergar a diferença entre construir um alojamento isolado e reservar parte de um bairro para o lazer de várias categorias. Para planejar uma rede como essa hoje, faria sentido olhar a rua como parte do programa: uma travessia segura até a praia, um ponto de ônibus acessível e uma calçada onde crianças, idosos e pessoas com mobilidade reduzida possam circular. São melhorias que servem a hóspedes e moradores. [5]

Um desses projetos foi o da colônia dos têxteis, de Vilanova Artigas. O bloco dos apartamentos é mais fechado; o de convivência se abre para um vazio central iluminado por claraboias. As rampas ligam os pavimentos e deixam os espaços comuns à vista de quem circula. Ao sair do quarto, o hóspede percebe onde pode encontrar outras pessoas sem precisar abrir mão do sossego do próprio apartamento. Em 1981, a colônia também sediou a primeira Conferência da Classe Trabalhadora. O mesmo lugar pensado para o descanso abrigou uma reunião em que os trabalhadores discutiram, entre outras reivindicações, a redução da jornada. [6]

A planta dos têxteis permite ir um pouco mais longe. O projeto reúne 42 apartamentos dúplex, cantina, restaurante, piscina e quadra. Entre os blocos, as rampas fazem do trajeto até o quarto uma oportunidade de ver o que está acontecendo nas áreas coletivas. Na leitura do edifício, isso faz diferença: o encontro fica à vista, mas cada pessoa ainda decide se quer participar. O salão receber a conferência foi uma apropriação histórica, não uma finalidade que se possa atribuir ao projeto original. As fotografias do encontro guardam o registro desse outro uso do prédio. [6], [7]

Na colônia da Federação dos Metalúrgicos, também na Praia Grande, os 50 apartamentos têm cozinha e sacada. A brinquedoteca, o restaurante e a churrasqueira ficam em áreas comuns. A família pode cozinhar no apartamento ou almoçar com mais gente sem que cada apartamento precise ter uma sala capaz de receber um grupo grande. A escala coletiva permite oferecer mais opções de lazer dentro do mesmo edifício, com privacidade onde ela faz diferença. [8]

Como ampliar o acesso

Um próximo passo é conectar colônias que já existem. Em 2022, o Sindcop firmou um convênio com uma federação de trabalhadores têxteis que deu aos seus filiados acesso a uma colônia na Praia Grande. O sindicato passou a oferecer um lugar para as férias sem ter de construir um prédio próprio. Convênios desse tipo podem aproximar sindicatos, associações e cooperativas, inclusive de categorias que sozinhas não teriam escala para manter um imóvel. Também é possível reservar parte das vagas ao público geral: a própria Federação dos Metalúrgicos divulga tarifas para associados, convidados e hóspedes avulsos. [8], [9]

Um jeito de testar essa ideia seria montar um calendário comum entre algumas colônias. Cada entidade informaria as vagas que pode compartilhar e manteria as regras acordadas para seus associados. Quem procura uma semana de férias poderia escolher entre os endereços da rede, em vez de desistir quando um deles lota. A rede também poderia oferecer acesso por um dia aos espaços que comportem visitantes, para que uma família da própria cidade possa usar uma parte da estrutura sem pagar hospedagem. São formas de aproveitar o que já existe antes de comprar terra ou abrir um novo canteiro.

A previsibilidade é o que faz essa rede ser uma alternativa à casa própria. Quem trabalha precisa saber com antecedência quando pode reservar, quanto vai pagar e como chega ao local. Um calendário publicado com antecedência e uma regra de rodízio para janeiro podem dar a mais famílias a chance de ir nas férias escolares. Se uma entidade subsidia a diária, pode deixar claro de onde vem o dinheiro e como ele ajuda a pagar a equipe, a limpeza e a manutenção. O objetivo é manter o acesso confiável de um ano para o outro.

Para a arquitetura, isso muda o programa: quartos que acomodem famílias de tamanhos diferentes, cozinha para quem prefere preparar a própria comida, áreas comuns que funcionem também nos dias de chuva e lavanderia dimensionada para a troca de hóspedes. Para o planejamento urbano, a questão é onde oferecer tudo isso. Adaptar hospedagens existentes, conectar as acomodações ao ônibus e reservar terrenos bem localizados para novos projetos são formas de ampliar a oferta sem depender de que cada família compre um pedaço do litoral.

A escolha para quem quer veranear também fica mais concreta. Antes de procurar um imóvel, dá para perguntar o que faria a família querer voltar: ficar perto da praia, cozinhar junto, poder convidar os avós ou ter um lugar para as crianças brincarem. Se uma hospedagem compartilhada oferece o que importa, a economia vai além da compra. A família passa a sustentar o lugar pelo tempo em que o usa, junto de outras que fazem o mesmo. A cidade ganha quando essa procura cabe num prédio existente ou justifica um prédio que já nasce para receber muito mais gente ao longo do ano.

Volte à cena da sexta à noite. As crianças reconhecem o caminho, alguém abre a sacola do mercado e os copos continuam no armário de sempre. Na semana seguinte, outra família vai usar a mesma mesa. No próximo verão, você pode sentar ali de novo. O lugar pode fazer parte da sua vida sem precisar ficar esperando por você.


Fontes e referências

[1] Brasil. Constituição Federal de 1988, arts. 6º e 7º, XVII.

[2] Karklis, Luis Roberto. Organização, estrutura e impactos das colônias de férias de trabalhadores: alguns estudos de caso. Dissertação de mestrado, USP, 2008.

[3] Sony Pictures Entertainment. Grown Ups. Ficha do filme de 2010. Disney+. Sinopse do reencontro na casa do lago.

[4] Estado de São Paulo. Lei nº 6.858, de 19 de julho de 1962, sobre a autorização de doações para colônias de férias, e Lei nº 9.919, de 20 de novembro de 1967, sobre a autorização de concessão de uso.

[5] Sbravatti, Pedro. Prefeitura de Praia Grande. Reportagem sobre a inauguração da segunda colônia da Federação dos Metalúrgicos, 4 maio 2012. Inclui o levantamento municipal sobre a Avenida dos Sindicatos à época.

[6] Núcleo Docomomo São Paulo. Colônia de Férias do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Fiação e Tecelagem de São Paulo. Fontes, Paulo. Colônia de Férias do Sindicato dos Trabalhadores Têxteis de São Paulo, Praia Grande (SP). Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho, UFRJ, 2021.

[7] Carlos, Jesus. Conferência Nacional da Classe Trabalhadora, 1ª, Praia Grande, 21–23 ago. 1981. Registro fotográfico, Centro Sérgio Buarque de Holanda, Fundação Perseu Abramo.

[8] Federação dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo. Colônias Federação. Descrição dos pavimentos, equipamentos e categorias de tarifa da Colônia de Férias Argeu Egídio dos Santos.

[9] Sindcop. Agora, filiados do Sindcop têm direito a colônia de férias na Praia Grande, 2022. Registro do convênio para uso da colônia.